Setembro 2, 2009 at 6:44 am (Uncategorized)

DSC00504

Hail, hail, rock n’ roll!

(Chuck Berry, BH, 2009)

Link Permanente Deixe um comentário

Iluminação.

Maio 27, 2009 at 1:43 am (Uncategorized)

Ontem tive a conversa mais tediosa e desesperadora de minha vida. O cara é um fanático por Stones e passou boa parte da existência envolvido com todo tipo de sujeira. Como qualquer fã de Stones que se mete com sujeira, ele tinha umas boas histórias pra contar. Mas não sabia como. O pó deve ter comido o cérebro dele. Ou talvez a falta de pó tenha comido o meu. Deus, como as pessoas são insuportáveis! 

Ando muito de mal com a vida. Andar um pouco de mal com a vida é aconselhável se você for um cronista, um humorista ou um blogueiro. Nada melhor do que uma leve dose de descontentamento para tornar as coisas mais engraçadas do que realmente são. Mas andar muito de mal com a vida é fria. Apenas lhe seca a vontade de seguir em frente.

Os budistas dizem que a vida é sofrimento e que o segredo é ficar tranqüilo. Enquanto cristãos buscam a redenção, budistas buscam a afasia. Elimine toda a esperança, todo o entusiasmo, toda a expectativa – taí o seu sartori, a sua iluminação. Pros psiquiatras, sartori é viagem de deprê. O.K, talvez não. Mas quando se está no fundo do poço, esse papo de iluminação búdica soa como uma grande bobagem. Assim como a psiquiatria. E os blogs. E os textos. E os Stones. E as pessoas. Deus, as pessoas!

Andava com meu amigo num shopping pra grã-finos, um desses lugares onde todos parecem feitos de acrílico, as mulheres são amálgamas de fotografias publicitárias e prostitutas, e ninguém parece ligar muito pra onde está indo.  Lembrei da conversa de ontem e vi meu rosto na vitrine. Não tinha nada a dizer, nem a meu melhor amigo. Seguia sozinho, com todo mundo ao redor, procurando a iluminação atrás daquelas coisas todas. É a vida implorando por um pouco de equilíbrio. São as coisas todas.

Link Permanente Deixe um comentário

Maio 11, 2009 at 9:14 pm (Uncategorized)

dylan_smile_071120_ssv

 

E aí, pessoal! Esse vai pra todos os dylanmaníacos de plantão:

http://dylansblues.wordpress.com/

E se alguém possuir ensaios, curiosidades ou traduções de textos interessantes sobre o Bob e sua obra, mandem para o justlikebobdylansblues@yahoo.com.br; Se eu gostar, terei muito prazer em publicá-los nesse novo blog. Se não gostar, prometo ser educado.

Abraços dylanianos!

Link Permanente 1 Comentário

Inimigo meu.

Maio 10, 2009 at 4:02 am (Uncategorized)

Você pode arrumar inimigos onde quiser. Pode sair no braço com qualquer pessoa, declarar guerra a qualquer ideologia, qualquer raça, credo, estado ou movimento. Há apenas dois caras com quem você não quer mexer. Dois caras que você, definitivamente, não pode vencer. Esses caras são você mesmo e o tempo. Não vá na contramão deles. Aceite-os, independente da situação. Eles são sujeira.

A modernidade foi o período em que o homem se opôs ao tempo. Acreditando ser capaz de domá-lo, quebrá-lo e manipulá-lo a seu bel-prazer, o homem matou Deus, relativizou todas as verdades, rompeu os maiores pactos, esvaziou a arena política, transformou a arte em altar (rebaixando-a, logo em seguida, a ornamento), esquadrinhou os planos mais luminosos – e se perdeu. A modernidade foi o período em que o homem se opôs ao homem. Mas a bala que enfiou nos próprios miolos não o matou. E o relógio que desenhou sobre a madeira não reteve as horas.

Em um de seus livros, falando sobre o nosso pós-tudo, Antoine Compagnon disse:

A consciência pós-moderna permite reinterpretar a tradição moderna, não vendo mais nesta nem o movimento semelhante a um tapete rolante, nem a grande aventura do novo. Uma vez que o messianismo não tem mais lugar, revelam-se todas as contradições, os acasos, as resistências do modernismo a seu avanço. (…) Hoje, nós gozamos de uma liberdade desconhecida há bem um século.

Faltou dizer que, se gozamos de tal liberdade, a gozamos no interior de um leito frio, onde, exaustos, tentamos nos restituir dos baques sofridos ao longo de uma luta absurda. Agora, o segredo é manter a fé na vida.

Link Permanente Deixe um comentário

Abril 28, 2009 at 4:31 am (Uncategorized)

 

I don’t know what’s wrong or right
I just know I need strength to fight

Strength to fight that world outside.


(Life is hard – Bob Dylan).

 

Link Permanente 1 Comentário

Bobby & eu.

Abril 24, 2009 at 12:07 am (Uncategorized)

Bob_Dylan-_Ghosts_Of_Electricity

Já fazem 9 anos desde a primeira vez que ouvi Mr. Tambourine Man e virei uma tiete. Lembro como se fosse ontem: meu dedo apertando o play, a mente desinteressada vagando por territórios distantes, os primeiros acordes do violão, os primeiros versos – e a terra parando de súbito, quase me derrubando da cadeira. No dia seguinte fui correndo para a galeria do rock, no centro da cidade, à cata de mais uma dose. “O que é que você tem do Bob Dylan?”. O cara era gordo e meio lento, sei que foi dos primeiros a abrir uma loja de discos em BH e não parecia estar muito feliz. Colocou em minhas mãos uma cópia do Bootleg 4, gravação do lendário show no “Albert Hall”. Nunca gostei de discos ao vivo, mas o sujeito me garantiu que era um clássico e que não me arrependeria. Olhei o verso da capinha do cd. Lá estava Mr. Tambourine Man. “O.K. Vou levar.” Cheguei em casa. Meu dedo apertando o play, pulando direto pra última faixa do cd 1 – composto exclusivamente por interpretações solo… E a decepção. Até hoje não consigo curtir muito essa versão de Bob para Tambourine Man. Muito arrastada. I felt I’d been had! Mas em nome da noite passada, resolvi, arrogantemente, dar uma chance ao disco. Não demorei para perceber que estava diante de um dos maiores registros ao vivo de todos os tempos. She belongs to me caiu como o prefácio para algo potencialmente fabuloso. Fourth time around era boa, mas não tão boa quanto a versão que viria a conhecer meses depois, quando comprei Blonde on Blonde da mão de uma hippie fedido. Algo me dizia que Desolation row merecia bastante respeito e, eventualmente, me atingiria em cheio. Mas foi mesmo a trinca composta por Just like a woman, It’s all over now, baby blue e Visions of Johanna que acabou comigo. Como um Dioniso destroçado, fiquei horas lá, tanto intelectual quanto emotivamente perplexo frente à beleza daquelas canções. Johanna é, até hoje, a minha música favorita. Já devo ter ouvido umas 20 versões diferentes dela, e, embora admita que a original de estúdio e a lançada no Bootleg 7 me agradam bastante, é essa, cantada na mais histórica de todas as apresentações de Dylan, a que mais mexeu (e mexe) comigo. Precisei de uns 3 dias para ouvir o cd 2, quão grande foi o impacto que tais composições exerceram sobre mim! Ao partir para ele, contudo, deparei-me com novas e maravilhosas surpresas. Por conta de seus nomes, Ballad of a thin man e Leopard-skin pill-box hat pareciam divertidas, o que me levou a começar por elas. Não gostei muito da primeira, as guitarras soavam algo desafinadas e eu não entendia o que Bob dizia. Novamente: precisaria ouvir a versão original para perceber o brilho da composição, mas na época eu não passava de um iniciante. Leopard pareceu mais legal, um blues irônico e nervoso, como um poema satírico idealizado por um adolescente cheio de testosterona. Tell me, momma, Baby let me follow you down e One too many mornings foram ainda mais fáceis de gostar. Mas nada me preparou para o gran finale, nada foi capaz de prenunciar o vôo empreendido por Like a rolling stone! Semanas depois, fiquei sabendo que se tratava da versão seminal dessa canção, a mais famosa e mais festejada. De certa forma, minha ignorância foi realmente um lance de sorte, pois me permitiu entrar em contato com algumas das maiores realizações do que viria a ser meu artista favorito, sem nutrir qualquer forma de expectativa. Minha reação deve ter sido um pouco como a das pessoas que estavam lá na hora do show – talvez ainda mais visceral, uma vez que nem sabia muito bem quem era Bob Dylan. Essa época foi uma boa época pra mim, em relação à música. Além de não me encontrar subjugado a esse demônio diluidor que é a internet, estava numa fase de abertura de horizontes. Dedicava pelo menos 2 terços de cada dia à descoberta de novos artistas e gêneros. Vivaldi, Schoenberg, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Beatles, Radiohead, Dave Brubeck, Frank Zappa, Odair José: tudo se misturava e complementava entre as paredes de meu quarto. Aprendia a tocar violão seguindo os passos de João Gilberto e Jorge Ben. Me aventurava a escrever algumas letrinhas inofensivas, emulando o estilo de Caetano e Chico. E depurava minha percepção rítmica, afundado em estilos que, durante a adolescência, considerava mundanos e desprovidos de valor. Foi exatamente nessa fase que Dylan surgiu, apresentando em suas canções tudo aquilo que, a fim de ouvir, eu precisava capturar do contato com um batalhão de músicos diferentes. O timbre seco, as letras trabalhadas e, acima de tudo, aquela tensão mágica entre as palavras e a estrutura abstrata das melodias e harmonias, aquele diálogo complementar, aquela grandeza épica arrancada do solo telúrico do cancioneiro americano – tudo estava lá, só bastava haver disposição para correr atrás. E eu corri! Em menos de um ano já sabia de cor quase todas as canções compiladas nos álbuns das duas primeiras fases dylanianas – que vão do lançamento do debut Bob Dylan até Blonde on blonde; e já havia me apaixonado loucamente por Blood on the tracks e curtido aquela deliciosa embriaguez que pulsa entre os arranjos extravagantes de Desire. Ainda demoraria um pouco para assimilar a maravilha de Time out of mind e seus filhos, a riqueza estética da fase cristã e de discos como Street legal e Shot of love. Na verdade, até hoje sou um pouco ignorante em relação a certos períodos – sobretudo aquele que marca a segunda metade da década de 80 e a “fase solar” que vai das Basement tapes até Planet waves. E admito: fico feliz por isso. Sinal de que ainda há chão a percorrer. Parafraseando o comentário de Eric Clapton acerca de Robert Johnson e o direcionando a Dylan, knowing him is a life’s work. Agora é dedo no play e Together through life no talo. It’s all good!

Link Permanente 1 Comentário

Abril 23, 2009 at 4:24 am (Uncategorized)

There is nor he or she or them or it that you belong to.

Link Permanente 1 Comentário

Los anillos fatigados, de C. Vallejo.

Abril 20, 2009 at 5:24 pm (Uncategorized)

 

Hay ganas de volver, de amar, de no ausentarse,
y hay ganas de morir, combatido por dos
aguas encontradas que jamás han de istmarse.

Hay ganas de un gran beso que amortaje a la Vida.
que acaba en el áfrica de una agonía ardiente.

suicida!

Hay ganas de… no tener ganas, Señor:
a tí yo te señalo con el dedo deicida:
hay ganas de no haber tenido corazón.

La primavera vuelve, vuelve y se irá. Y Dios
curvado en tiempo, se repite. y pasa, pasa
a cuestas con la espina dorsal del Universo.

Cuando las sienes tocan su lúgubre tambor.
cuando me duele el sueño grabado en un puñal,
¡hay ganas de quedarse plantado en este verso!

Link Permanente Deixe um comentário

Abril 19, 2009 at 4:28 am (Uncategorized)

grindhouse-11-1280

Link Permanente Deixe um comentário

Grindhouse.

Abril 19, 2009 at 4:20 am (Uncategorized)

Já estão rolando na net as primeiras imagens de Inglorious basterds, o novo filme de Quentin Tarantino. Curioso: em alguns meses o épico de guerra do diretor chegará às telonas e nem sinal de À prova de morte, sua contribuição ao projeto Grindhouse, dirigido em parceria com Robert Rodriguez em 2007. Esse Brasil não está com nada. Na época em que Planeta terror estreou em nossos cinemas, escrevi uma crítica sobre as duas obras, postando-a no blog quando ainda pertencia a outro domínio. Acabo de revisá-la e a reproduzo abaixo, menos como reflexo imediato de meu entusiasmo e mais como uma forma de protesto. Tarantino deserves better than this.   

 

Há quem diga que, em relação ao cinema, a pós-modernidade começa com Sérgio Leone. Afinal, mais do que um subgênero, o “spaghetti western” constitui-se por si só enquanto um exercício de revisão crítica. Intertextualidade, cooptação de técnicas alheias e renovação das mesmas através de expedientes narrativos inusitados, paródia da homenagem e homenagem da paródia, tudo se coaduna em um universo múltiplo de referências e citações. Desnecessário dizer que, de uma forma ou de outra, a maioria absoluta dos cineastas relevantes surgidos a partir da década de 80 resolveram seguir os passos de Leone, abdicando das pretensões vanguardistas de estabelecimento de uma linguagem “original” e abraçando a intertextualidade como mote central. Basta pensarmos, por exemplo, na estética do Kitsch de John Walters e Almodóvar, na releitura gótica do cinema de fantasia proposta por Tim Burton ou mesmo na contaminação expressionista da estética desenvolvida no interior do perturbador universo fílmico de Terry Gilliam.

Contudo, no que diz respeito a essa forma específica de se trabalhar o cinema, nenhum projeto foi capaz, até agora, de se igualar à última empreitada dos enfants terribles Robert Rodriguez e Quentin Tarantino. Refiro-me, obviamente, a Grindhouse, a inquietante reunião de Planeta Terror e À prova de Morte. Antes de quaisquer esclarecimentos acerca das obras, detenhamo-nos um pouco sobre o sentido do termo grindhouse.

Basicamente, os grindhouses eram cinemas, salas de exibição localizadas em bairros pobres dos Estados Unidos, onde películas sensacionalistas de baixíssimo orçamento eram exibidas aos pares por preços módicos a uma audiência pouco seletiva. Porém, grindhouse era também o nome usado para denominar esse gênero cinematográfico específico (igualmente conhecido como exploitation movie). Obras destituídas de pretensão artística, os grindhouses se dividiam em diversas subcategorias, dentre elas: os filmes Blaxploitation, nos quais atores negros interpretavam estereótipos grosseiros de traficantes, marginais e prostitutas; os filmes de Sexploitation, forma leve de pornografia na qual o enredo servia exclusivamente como artifício para se exibir mulheres nuas; filmes de zumbis; filmes de canibais; filmes de motoqueiros; de mulheres em prisões (?); de assassinos nazistas; de artes marciais; e os chamados “shockumentaries” (documentários que focavam cenas de morte brutal e lidavam com toda sorte de assuntos considerados tabu). A indústria dos grindhouses, assim como a da pornografia, sofreu um baque na década de 80, com o surgimento do vídeo cassete e, até o inicio da década de 90, todas as salas de exibição voltadas para essa forma de entretenimento desapareceram. Enquanto a indústria pornô se reinventou, adaptando-se ao formato caseiro, a dos grindhouses simplesmente morreu.

Eis que, em 2007, Rodriguez e Tarantino, dois dos mais festejados diretores em atividade, resolveram reanimar o grindhouse. Fãs confessos de todas essas formas de cinema B, os diretores se uniram e decidiram lançar dois filmes que, mais do que dialogar com o gênero “trash”, se posicionassem em seu interior, obedecendo fidedignamente a suas regras composicionais e às demandas de sua estética apelativa. O desejo por adequação plena a tal paradigma levou-os mesmo a distribuir os filmes como parte de um só projeto. Ou seja: assim como nas antigas salas de exibição, o expectador pagaria um ingresso e assistiria às produções dos dois artistas (em termos financeiros, o saldo não foi positivo e, a fim de cobrir o prejuízo, os produtores optaram por lançar Planeta Terror e À prova de morte separadamente no restante do mundo).

Analisando a carreira de ambos os diretores, Grindhouse parece uma opção quase óbvia. Em plena consonância com as exigências de sua geração, os dois estetas que se tornaram Rodriguez (autor daquele delírio visual que foi Sin City) e Quentin Tarantino (que com Kill Bill, já livre do fantasma pekinpaniano, provou ao mundo ser o mais proficiente dos diretores atuais), dão um novo passo no que remete ao uso da intertextualidade e à compreensão do exercício cinematográfico enquanto tarefa metacrítica. Mais do que homenagens, mais do que reinvenções de certos topoi ou técnicas narrativas, Grindhouse age como a problematização da própria problematização do estatuto da arte desenvolvida no seio da pós-modernidade.

 

grind_house_lobby_cards_01_1

 

Se, até certo período, a obediência por parte de uma obra a determinadas convenções estilísticas determinava ao crítico a validade da mesma, e se tal pressuposto, do romantismo em diante, passou por um processo de inversão radical (sendo a originalidade e o desapego a regras pré-estabelecidas uma forma de juízo máximo), os tempos pós-modernos, imersos num processo de relativização de todas as verdades, se viram diante de uma encruzilhada. Num mundo de sofistas, como determinar a qualidade de uma produção? Como se afastar de uma postura impressionista? Há os que argumentam em favor da idéia de intencionalidade. Sob tal viés, a boa obra de arte é aquela que preenche seus objetivos, que expressa certas pretensões e, em seu desvelar, as satisfaz plenamente. O que dizer, contudo, de um grande artista que, no interior de um paradigma pobre em si mesmo, comprometido com regras grosseiras e sensacionalistas e esvaziado de qualquer conteúdo estético relevante, resolve honrá-lo, colocando seu talento à disposição de tais normas?

Eis o caso de Grindhouse, mais do que uma revisão crítica, mais do que uma reutilização criativa de técnicas depreendidas do contato com o “trash”, uma adequação plena a todas as suas demandas. Essa estranha escolha, reitero, soa quase óbvia. De El Mariachi a Sin City, de Cães de Aluguel a Kill Bill, percebe-se nas obras de ambos os cineastas o desenvolvimento gradual de uma percepção da arte cinematográfica como o espaço da ilusão e do espetáculo. Despreocupados com as repercussões teóricas que suas criações possam suscitar, os dois autores, pouco a pouco, radicalizaram as implicações do legado leoneano, entregando-se cada vez com maior entusiasmo à construção de teias intertextuais e de uma linguagem a um só tempo mais autoral e mais dialógica. Contudo, se as referências a filmes B encontram-se espalhadas por todos os seus filmes, até aqui essas referências foram retrabalhadas, descontextualizadas e, em muitos casos, subvertidas semanticamente. Kill Bill, mais do que um filme de artes marciais, é um filme sobre formas cinematográficas. O olhar de esteta de Tarantino o inibe de se entregar ao puro deleite imanente à constituição do gênero que resolve homenagear; seu gênio conjuga homenagem e paródia, desenvolvendo, assim, o que poderíamos chamar de uma espécie de entretenimento crítico. O mesmo pode ser dito em relação aos melhores momentos de Rodriguez.

Com Grindhouse, a radicalização da proposta por eles executada atingiu seu ápice. Não mais flertar com o outro, mas sim, integrar-se a ele. A imposição de um estilo autoral não deveria, dentro desse jogo, impedir o transcorrer dos clichês e das estruturas básicas do exploitation. Ao contrário: deveria servir a tais estruturas, exponencializando aos olhos da audiência os próprios mecanismos de que se valem. Tal empreendimento, entretanto, é de natureza bastante complexa, pois não tem como telos o descortinamento de uma teoria implícita acerca do fazer cinematográfico. O desejo aqui não é criar metalinguagem pela metalinguagem – embora muitos possam ler os filmes como intensos exercícios estilísticos e tratados de compreensão de gramática fílmica. O desejo é, sobretudo, entreter a audiência. A problematização do papel do artista (quem é o gênio? poderia ele dirigir um filme sobre zumbis? e o que tornaria tal empreitada “genial”?) e do crítico (como penetrar em tal obra? por um viés de ordem estrutural? pela percepção da consciência crítica acerca das regras do gênero a que homenageiam/parodiam? pelo divertimento irrestrito que proporciona ao longo de sua exibição?) não parece figurar no horizonte de expectativa da dupla. Tudo o que eles querem é reviver os bons tempos de grindhouse, quando podíamos pagar alguns centavos e ver mulheres voluptuosas batendo em lobisomens. Em suma: a dimensão crítica nasce muito menos em função de fatores constitutivos dos filmes do que do choque entre o que representam e o contexto no qual foram geridas.

Artistas pop, felizes com sua condição de entertainers, mas tecnicamente eficientes ao ponto de desenvolverem obras de grande valor estético, Tarantino e Rodriguez, ao invés de discursarem sobre os rumos do cinema e da arte em geral, vaticinam o encurtamento das relações entre alta e baixa cultura, entre negatividade e entretenimento, entre pastiche, parodia, homenagem e autoria; diagnosticam o enfraquecimento do emprego recriativo da intertextualidade e do uso irrestrito da metalinguagem como técnicas vigentes, exatamente ao empregá-las com mestria; reconciliam a audiência àquele prazer culpado oriundo do olhar impressionista, infantil, sem justificativas; e nos brindam com dois do mais ousados experimentos cinematográficos da década.

Link Permanente Deixe um comentário

Abril 18, 2009 at 3:44 am (Uncategorized)

filolismalltree

Tive um sonho. Era minha casa, mas não era minha casa. Eu estava à janela, observando-a caminhar por um minúsculo jardim. O gramado, as duas árvores, o céu sem nuvens, tudo do lado de fora possuía cores básicas, incomunicáveis. O céu era de um azul total. O verde do gramado chegava a arder. Ela vinha não sei de onde, trajando as velhas vestes que tantas vezes vi usar em livros, quadros e filmes. Abaixou-se e, do chão, ergueu uma maçã. Não parecia notar a minha presença, nem sequer a existência de uma casa, o que me levou a bater na janela. Seu possível rosto se moveu em direção ao som. Agitei as mãos, convidando-a a entrar, e a vi fazendo um gesto confuso, como que dizendo “Quem? Eu?”. Assenti com a cabeça e ela veio.

Não quis se desfazer do manto, mas aceitou o convite para o chá. Sentou-se em silêncio, aguardando, humilde, o bule e o prato de biscoitos. Falamos sobre muitas coisas, nós, dois velhos conhecidos, e o tempo perdeu sua relevância. Todas as cores do cômodo eram primárias: o verde dos ladrilhos, o branco das paredes, o vermelho da mesa e cadeiras. Por alguns segundos, creio que ela chegou a sorrir. Quando se levantou, indicando que precisava seguir viagem, não me opus – tão somente a acompanhei. Deu-me um abraço e agradeceu a compreensão. Logo se encontrava, novamente, à cata de uma maçã. Eu a observava pela janela, mas eu não estava mais lá. Eu não estava no quarto, não estava na sala, não estava em lugar algum. E ela se foi. Tinha trabalho a fazer. Impérios inteiros a derrubar. Espaços a conquistar, sorrateiramente. Os maiores homens a vencer.

No meu sonho, ela entrou pela porta da frente, sem quaisquer armas nas mãos.

Link Permanente 1 Comentário

Abril 17, 2009 at 10:29 pm (Uncategorized)

Isis Valverde: ajudando o Make it rain! a crescer.

Link Permanente 3 Comentários

Isis Valverde.

Abril 17, 2009 at 10:29 pm (Uncategorized)

Mais cedo, como me sentia meio entediado, acessei as configurações desse blog – e qual não foi minha surpresa ao descobrir que no dia 13 o Make it rain! foi visitado pelo maior número de pessoas em  toda sua história, inclusive se levados em consideração os quase dois anos em que esteve ativo em um domínio diferente. O.K, se comparados aos acessos de outros sites, os números são pífios. Porém, para uma página que estava acostumada com cerca de 3 ou 4 clicadas diárias, receber 49 visitas em um dia é um feito e tanto!  

Evidentemente, como não poderia deixar de ser, minha alegria durou pouco. Descendo mais a telinha, percebi que dos 49 acessos, 20 haviam se dado por conta de um posting específico, encontrado através de pesquisas no google. Desci um pouco mais e lá estava: 16 indivíduos procuravam “Isis Valverde”; um, “Izis Valverde”; outro, “isis valverde fotos”; e, finalmente, dois estavam mesmo a fim é de “isis valverde nua”. 

Pois é, não foram as informações sobre o Dylan, meus comentários mordazes sobre o cotidiano ou meu estilo irresistível de escrita que atraíram toda essa gente. Foi a fotinha da Isis que publiquei num posting-piada em 2 de março…Vasculhei um pouco mais as configurações do blog: parece que desde 9 de abril não houve um dia em que alguém não tenha topado com o Make it rain! procurando a Isis Valverde. Em função de tal fato, me perguntei: por que o interesse crescente por essa menina nas últimas semanas? À cata de respostas, fui pesquisar um pouco mais sobre ela.  

A Wikipédia me disse que nasceu numa cidade chamada Aiuruoca, tem 22 aninhos, já estudou aqui em Belo Horizonte, começou a carreira como modelo, virou atriz e participou de 4 novelas – inclusive uma chamada Caminho das Índias, que parece ainda estar sendo transmitida.

O site Vemquetem me informou que Isis não possui planos de posar nua, mas já tirou fotos sensuais pra uma revista dessas aí. “Posar nua não me agrega nada… E o cachê nem é isso tudo”, disse a garota. “Que pena Isis, que pena…”, lamentou o Vemquetem.

A sessão “Divirta-se” do site Uai relatou que Isis e Marcelo Faria reataram o namoro, depois de uma separação motivada por certa briguinha no último carnaval. Eu ainda não sei quem é Marcelo Faria, mas como ninguém o procurou na minha página, deixarei pra pesquisar depois.

Finalmente, cheguei ao blog da própria atriz. Lá descobri que ela lê todos os recados de alguém chamado Junior; que o vestido que usou na festa prêmio Shell é da Mary Zade; que anda cansada de viver num mundo careta dominado pelo certo e pelo errado; e que nasceu, como dizia sua avó, com um parafuso a menos, enfurnada nos bambuais, sentindo-se sempre meio sozinha por ter alma de artista, de boêmio, de poeta. Descobri que ela nasceu assim… ar.  

É possível que o interesse crescente por Isis Valverde se deva ao papel que está desempenhando nessa novela, Caminho das Índias. Talvez seja uma participação de destaque. Talvez, como atestado em videosespetaculares.com, ela realmente seja “a gatinha mais linda da tv”. Eu a achei gatinha, mas como não vejo tv, não tenho condições de opinar. Além disso, olhando algumas fotos, devo admitir que Isis Valverde não me deixou muito empolgado. Tá certo que ela não é uma dessas mulheres de plástico, nascidas pra serem perfeitas, como a Aline Morais, que já acorda penteada e com o hálito de rosas. Mas tampouco possui ela a vida que as grandes mulheres, aquelas que realmente valem a pena, guardam dentro de si. Ela não tem a violência estampada nos olhos de jabuticaba da Cléo Pires. Ela não tem o ar majestático e imponente de uma Mariana Ximenes. Ela não transmite a suavidade e a gentileza depreendidas do sorriso de Letícia Sabatela.

Eu não conheço a Isis Valverde e sei que as imagens estão aí pra nos puxar o tapete. Agradeço a ela por ser gatinha e, assim, ajudar o Make it rain! a crescer. Mas admito que, comigo, ela provavelmente não teria muitas chances.

Link Permanente 2 Comentários

Abril 17, 2009 at 7:16 pm (Uncategorized)

Sometimes my burden is more than I can bear
It’s not dark yet, but it’s getting there.

Link Permanente Deixe um comentário

Descontentamento.

Abril 17, 2009 at 6:57 pm (Uncategorized)

Seus olhos pareciam congelados. Assim como os lábios, os braços, as pernas. Os movimentos do peito eram leves, e os dos cabelos. Não havia um lado de fora. Pensou, se não fosse pela existência concreta dos mortos, a profissão de coveiro lhe cairia bem. As gradações de verde, a casa em silêncio – tudo lhe vinha, o horizonte branco, a presença de todos os que se foram. A presença do que não é, pensou, e quis escrever. Lembrou-se do dia em que ela disse gostar de como escrevia. “Por quê?” “Antes, preciso dizer outra coisa” Ela disse outra coisa e não voltou. Nunca soube e, vez por outra, se lembrava. Se lembrava que escrevia bem, mas que nunca saberia porquê. Seus olhos pareciam congelados. Perdeu por um segundo o tempo das idéias, imerso numa seqüência de imagens ainda mais veloz do que a que se desenrolava no fora que não havia.

Um solavanco empurrou seu corpo contra o banco da frente. Olhou ao redor. Uma senhora de pele morena e cabelos grisalhos tentava se recompor do susto, passando a mão sobre o vestido e encarando o trocador com o olhar severo. Um garoto se levantou e pôs a cabeça para fora da janela. Talvez um acidente. Talvez alguém estivesse ferido. Uma menina de cachos vermelhos. Dois rapazes silenciosos. Um homem sem imaginação. “Você sabe por que gosto do jeito como você escreve?” “Por quê?” “Vou te dizer. Mas antes tem outra coisa” Gostava de algumas palavras, as mais duras, mais palpáveis. Aquelas poucas em que sentia poder confiar. Eco. Aro. Amarelo. Descontentamento.

Começou a chover. Uma gota percorreu o exterior do vidro, deixando atrás de si um triângulo. Uma segunda tentou seguir o rastro, mas se perdeu, rumando em direção à lataria. Ele acompanhava aqueles movimentos, enquanto assimilava o gosto de sangue que lhe vinha à boca. Não foram poucas as vezes em que, cambaleando por cantos escuros da cidade, desejou agarrar o primeiro que lhe cruzasse o caminho e gritar bem alto: EU NÃO SOU SEU IRMÃO! NÃO SOU SEU SEMELHANTE! SEQUER PERTENÇO À SUA ESPÉCIE! Via a todos e não sentia nada além de uma mistura de tédio, estranhamento e irritação. “Pior pra ela!” A menina de cachos vermelhos riu. Os dentes do garoto eram excessivamente brancos, quase como o marfim das teclas de um piano. Pousou os olhos sobre o casal. Via suas carcaças, os fios vermelhos, a pele clara, as espinhas no rosto, os dentes brancos, os sapatos, a mochila, as mãos, os dedos entrelaçados, tudo se decompondo e desvelando. O vermelho se misturava aos dentes, os olhos de um se mesclavam à pele do outro, as extremidades se tornavam prolongamentos. E logo não passavam de um enorme borrão, uma mancha colorida desprovida de sentido.

“Suas palavras são leves” “Mais que as suas” “Sim, eu sei” “Mas gosto delas.” “Eu as escrevo pra você” “Sabe por que gosto da forma como você escreve?” Descontentamento. Aquela era sua palavra. Por um lado, os cortes secos, os baques. Por outro, a suavidade das vogais nasaladas. Descontentamento. O motor para novas e grandes obras. O princípio irrevogável do fim. Se não fosse a presença real dos mortos, seria um coveiro. Não importunaria ninguém. Imergiria em sua própria feiúra, sua mediocridade, seus olhos repulsivos, via um inseto grotesco, o corpo viscoso, asas abertas sobre um mundo em ruínas, pessoas minúsculas, fora de alcance, vozes quais cacosdevidro na pele, fístulas supuradas, órbitas, espadas, nenhum vestígio do dia, nenhum resquício, nenhuma escolha. Enterra teus mortos e volta ao lar. A menina não estava mais lá. Seguia sozinho. Seus olhos pareciam congelados. O que há de tão atraente no fracasso? As pessoas não devem odiar. A vida não vale a pena. O tempo.

Link Permanente 2 Comentários

Abril 16, 2009 at 12:11 am (Uncategorized)

03f/21/hury/15463/23

Link Permanente Deixe um comentário

Próxima página »