“Eram apenas ossos, ossos dentro de uma caixa, mas os ossos deles eram dele, e ele aproximou-se dos ossos o máximo que pôde, como se a proximidade pudesse estabelecer um vínculo com eles, atenuar o isolamento causado pela perda do futuro e religá-lo a tudo o que havia ido embora. Durante uma hora e meia, aqueles ossos foram a coisa mais importante no mundo. Eram tudo o que importava, a despeito do ambiente de decadência daquele cemitério abandonado. Na presença daqueles ossos, ele não conseguia se afastar deles, não conseguia não falar com eles, não conseguia fazer outra coisa senão ouvir o que eles diziam. Entre ele e aqueles ossos muita coisa aconteceu, muito mais do que agora entre ele e os que ainda tinham carne em torno de seus ossos. A carne vai embora, porém os ossos permanecem. Os ossos eram o único consolo que restava para alguém que não acreditava na vida após a morte e sabia, sem nenhuma dúvida, que Deus era uma ficção, e que aquela vida era a única que ele teria. Como diria a jovem Phoebe no tempo em que eles se conheceram, não seria demais afirmar que seu maior prazer agora era ir ao cemitério. Apenas ali o contentamento era possível.
Não tinha a impressão de estar jogando um jogo. Não tinha a impressão de que estava tentando fazer que uma ficção se tornasse verdade, Aquilo era a verdade, a intensidade da ligação com aqueles ossos.
Sua mãe morrera com oitenta anos, seu pai com noventa. Disse ele, em voz alta, para os dois: “Estou com setenta e um anos. O filho de vocês está com setenta e um anos”. “Bom. Você viveu”, respondeu a mãe, e o pai disse: “Olhe para trás e expie as coisas que você pode expiar, e aproveite o que lhe resta”.
Ele não pôde continuar. A ternura estava fora de controle. Tal como o anseio de que todos estivessem vivos. E de ter tudo aquilo de volta outra vez. “
(Homem comum, Philip Roth )