Zappa, Beefheart.

Publicado: agosto 21, 2011 em Uncategorized

 “O mais áspero diamante da mina, suas invenções musicais são feitas de osso e de lama. Entre na estranha matriz daquela mente e perca a sua. Isso é indispensável para o ouvinte sério. Uma expedição no centro da Terra, esse é o disco de salto em altura que jamais será superado, é um molho de redução de merlot. Ele morde a isca. Dante sapateando ao som de Skip James. Beba uma vez e não sinta mais sede. “

Tom Waits sobre Trout Mask Replica.

 

“É seu último grande trabalho. O conjunto é espantoso. É um desfile rico de texturas e cores. É a claridade de sua loucura perfeita e mestria. Frank governa com Elmore James à sua esquerda e Stravinsky à sua direita. Frank reina e regula com as ferramentas mais estranhas. “

Tom sobre Yellow Shark.

Após gravarem Bongo Fury, Don Vliet – ou Captain Beefheart, como ficou conhecido – e Frank Zappa passaram mais de década sem conversar um com o outro. De acordo com relatos da época, por volta do final da turnê que resultaria no disco, a tensão entre os dois era tamanha que eles sequer se olhavam no rosto.

O motivo central de tal desavença residiu no modo como lidavam com a música e com seu exercício. Zappa, um notório perfeccionista, exigia comprometimento total por parte de seus músicos, chegando a colocar vários “de castigo” sempre que cometiam a ousadia de errar alguma nota ao longo das apresentações. Beefheart, ele mesmo uma espécie de tirano, parece não ter se sentido nada à vontade sob o cabresto do colega. Suas imposições, muito mais elípticas e tateantes, pareciam refletir uma figura aberta aos caprichos da contingência – palavra que, a Frank, devia causar arrepios.

Musicalmente falando, muitos são os pontos de contato entre as invenções destes artistas. Amigos de adolescência, tendo descoberto juntos o rhythm n’ blues e percebido que os limites da música popular americana estavam muito longe de ser esgotados, Zappa e o capitão se tornaram, ao longo de suas impressionantes carreiras, experimentadores radicais. Fundindo referências díspares e desconstruindo todo tipo de padrão, eles levaram o ideal vanguardista ao mundo pop, desenvolvendo grandes e belos atestados de liberdade estética.

Ainda assim, um elemento profundamente discordante reside dentro do paradigma que os dois músicos arquitetaram – e que, a meu ver, aponta para o modo como ambos lidam com o caos.

Creio que qualquer tentativa de se classificar a obra de Zappa já nasce falhada. Como ele mesmo anunciou em entrevista, existem incontáveis tipo de “Zappa sounds”: canções  orientadas para guitarra, discos contendo peças orquestrais, faixas de rhythm n’ blues básico, temas pop revisitados e implodidos por dentro – enfim, uma infinidade de tendências e estilos espalhada ao longo de uma infinidade de álbuns memoráveis. Porém, se há algo que acredito conceder um nível mínimo de coerência a tão monumental empreendimento é o modo como o caos aparece subjugado no interior de estruturas rigidamente construídas. O próprio uso do improviso, tão apreciado por Frank, se dá sempre em momentos específicos e pré-determinados de suas composições, havendo em suas partituras trechos em que a notação é intencionalmente suspensa – seguindo, assim, a notória cartilha cageana. Mais apolínea do que propriamente dionisíaca, a música de Zappa, por mais politicamente engajada e ultrajante que possa ser, se configura, sobretudo, como um exercício de contenção. Experiência de caos controlado, em que o desbunde anda sempre de mãos dadas com o desejo de clarificação da consciência, em que o choque e o estranhamento se dão através de uma manipulação hiper-racionalista das formas.

Beefheart – principalmente após o lançamento de seu lendário Trout Mask Replica – não me parece interessado em propor nada. Muito mais elusiva e abstrata, sua arte sinaliza um desejo de representação (ou melhor, apresentação) do caos no seu estado mais puro, convidando o ouvinte a saltar para fora do universo do sentido, do conforto e da regra. Como se sabe, o capitão podia ser tão neurótico e exigente quanto seu amigo – embora se comportasse de modo muito mais excêntrico. Notórias são as histórias acerca do processo de desenvolvimento de Replica, as torturas a qual submeteu os músicos de sua “banda mágica” e a obsessão do compositor em compreender e dominar cada parte de sua criação. Contudo, diferentemente dos discos de Zappa, os de Beefheart se configuram como extremos exercícios de dispersão, nos quais cada forma fraturada, cada tempo diluído, cada seqüência harmônica retorcida, são inseridos no interior de um fluxo caótico. Tão meticulosamente engendrado quanto o de Frank, o trabalho de Don Vliet não mira o mundo dos homens, mas o que se esconde por detrás dele – aquele espaço sombrio e maravilhoso que precede o verbo e abriga a matéria-prima de todos os sonhos.

A trajetória pós-Bongo Fury dos autores (que viriam a se reconciliar pouco antes da morte de Zappa), em certa medida, comprova minhas impressões. Enquanto o líder dos Mothers, ao longo da década de 80, se viu dividido entre o engajamento político – tendo escrito álbuns inteiros veiculados a questões caras à época – e a rígida e harmonicamente desafiadora música erudita que sempre amou, Beefheart lançou mais alguns álbums de anti-blues, corroendo as vértebras do cancioneiro americano, até se aposentar e se dedicar integralmente à pintura abstrata.

Gênios maiores da história recente da música americana, Frank e Don figuraram ao longo das décadas como faces complementares de uma mesma moeda, ajudando, com o vigor e a violência de suas obras, a expandir os universos que optaram por habitar. Honremo-los, pois, da única forma que nos é cabível: ouvindo-os.

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