Dimensions, por Laura Riding

Measure me for a burial
That my low stone may neatly say
In a precise, Euclidean way
How I am three-dimensional.

Yet can life be so thin and small?
Measure me in time. But time is strange
And still and knows no rule or change
But death and death is nothing at all.

Measure me by beauty.
But beauty is death’s earliest name
For life, and life’s first dying, a flame
That glimmers, an amaranth that will fade
And fade again in death’s dim shade.

Measure me not by beauty, that fears strife.
For beauty makes peace with death, buying
Dishonor and eternal dying
That she may keep outliving life.

Measure me then by love–yet no,
For I remember times when she
Sought her own measurements in me,
But fled, afraid I might foreshow
How broad I was myself and tall
And deep and many-measured, moving
My scale upon her and thus proving
That both of us were nothing at all.

Measure me by myself
And not by time or love or space
Or beauty. Give me this last grace:
That I may be on my low stone
A gage unto myself alone.
I would not have these old faiths fall
To prove that I was nothing at all.

(L. Riding)

Broken Cups.

Minha banda, a Broken Cups, acaba de lançar seu primeiro vídeo na net! Versão de Hallelujah com a encantadora Lygia Santos nos vocais, Alexandre da Mata nas cordas, Cinara Motta no baixo e Glauco Leite na batera. Espero que curtam!

Semana que vem, TOM WAITS!

 

 

Crazy horse.

crazy horse

 

“In your eyes I shall drown. May I? To drown in your eyes is a happiness. I’ll come and say: ‘I love you so much’. May I? No, it’s not easy to love. It’s hard, very hard. I’ll come close to a steep cliff. Will you catch me in time? If I go away, will you write to me? I can’t be without you. I want to be with you. Not for a minute, not for a month.  Forever.  All my life, do you understand? I’m afraid of your answer. Answer me, but don’t say a word. Answer me with your eyes. Do you love me? If you do, I promise that you’ll be happy with me forever. If you don’t, then I beg you, don’t look at me, don’t kill me. If you want to love someone else, do it. But remember me just a little. I’ll go on loving you. Agreed? Like it or not, I’ll love you and I’ll always be there for you whenever you need me.”

(Crazy Horse, Frederick Wiseman)

Subliminar.

“De acordo com um livro-texto sobre fisiologia humana, o sistema sensorial do homem envia ao cérebro cerca de 11 milhões de bits de informação por segundo. Porém, qualquer pessoa que um dia tenha tomado conta de algumas crianças que falam ao mesmo tempo pode testemunhar como nossa mente consciente não consegue processar algo próximo desse número. A verdadeira quantidade de informação com que podemos lidar foi estimada em algo entre dezesseis e cinqüenta bits por segundo. Portanto, se nossa mente consciente tentasse processar toda essa informação enviada pelo sistema sensorial, nosso cérebro travaria, como um computador sobrecarregado. Além do mais, mesmo sem perceber, tomamos muitas decisões por segundo. Será que eu deveria cuspir esse bocado de comida por ter detectado um odor estranho? Como devo ajustar meus músculos para continuar de pé sem me inclinar? Qual é o significado das palavras que aquela pessoa está murmurando do outro lado da mesa? Aliás, que tipo de pessoa ela é?

A evolução nos deu uma mente inconsciente porque é ela que permite nossa sobrevivência num mundo que exige assimilação e processamento de energia tão maciços. Percepção sensorial, capacidade de memória, julgamentos, decisões e atividades do dia a dia parecem não exigir esforço – mas isso só porque o esforço demandado é imposto sobretudo por partes do cérebro que funcionam fora do plano da consciência.

Considere a fala, por exemplo. A maioria das pessoas que lêem a sentença ‘O professor de culinária disse que as crianças cozinharam bem’ atribui automaticamente um significado ao verbo ‘cozinhar’. Mas, se você ler ‘O canibal disse que as crianças cozinharam bem’, automaticamente, ‘cozinhar’ ganha um sentido mais alarmante. Mesmo se acharmos fácil estabelecer essas diferenças, a dificuldade que há em entender até uma fala simples é muito importante para cientistas da computação que tentam criar máquinas que respondam à linguagem natural.

Essa dificuldade é ilustrada pela história apócrifa de um dos primeiros computadores, que recebeu a tarefa de traduzir a homilia ‘The spirit is willing but the flesh is weak’ para o russo e depois para o inglês de novo. Segundo a história, a tradução saiu: ‘A vodca é forte mas a carne é podre’. Felizmente, nosso inconsciente faz um trabalho bem melhor ao lidar com linguagem, percepção sensorial e uma fervilhante quantidade de outras tarefas com grande velocidade e precisão, deixando tempo para nossa mente deliberativa se concentrar em coisas mais importantes, como reclamar para a pessoa que programou o aplicativo de tradução. Alguns cientistas estimam que SÓ TEMOS CONSCIÊNCIA DE CERCA DE 5% de nossa função cognitiva. Os outros 95% vão para além da nossa consciência e exercem enorme influência em nossa vida – começando por torná-la possível.”

(Leonard Mlodinow)

Hitchens.

Nessa semana, o ilustríssimo Pastor Marco Feliciano foi eleito Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias. Diante de uma notícia como essa, só nos resta voltar ao bom e velho Hitchie, a fim de dar uma recarregada nas baterias:

“O questionamento da fé é a base e a origem de todos os questionamentos, porque é o começo – mas não o fim – de todas as discussões sobre filosofia, ciência, história e natureza humana. É também o começo – mas de modo algum o fim – de todos os debates sobre a vida boa e a cidade justa. A fé religiosa é, exatamente porque somos criaturas em evolução, não-erradicável. Ela nunca morrerá, ou pelo menos não enquanto não superarmos nosso medo da morte, do escuro, do desconhecido e dos outros. Por essa razão eu não a proibiria, mesmo se pudesse. Muita generosidade da minha parte, você poderia dizer. Mas os religiosos seriam tão indulgentes comigo? Pergunto isso porque há uma verdadeira e séria diferença entre mim e meus amigos religiosos, e os amigos reais e sérios são suficientemente honestos para admiti-la. Eu ficaria bastante contente de ir aos bnei mitzvah de seus filhos, de me encantar com suas catedrais góticas, de ‘respeitar’ sua crença em que o Corão foi ditado, embora exclusivamente em árabe, a um profeta analfabeto, ou de me interessar por lenitivos wicca, hindu ou jainistas. E continuaria a fazer isso sem insistir na educada condição recíproca – que é que eles, por sua vez, me deixem em paz. Mas isso a religião é absolutamente incapaz de fazer. Enquanto eu escrevo estas palavras e enquanto você as lê, pessoas de fé estão, de suas diferentes formas, planejando a sua e a minha destruição, e a destruição de todas as difíceis conquistas humanas que me cercam. A religião envenena tudo.”

(Chirstopher Hitchens, “Deus não é grande”)

Atoms for peace.

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Na década de 60, o Bob Dylan ligou umas guitarras e mandou uma versão proto-punk da sua “Down on Penny’s Farm” em Newport. Ninguém entendeu nada. Acusaram-no de estar se vendendo, traindo o movimento, etc. Na década de 70, Miles Davis lançou o seu caldeirão, misturando Louis Armstrong e Jimi Hendrix. Ninguém entendeu nada. Acusaram-no de estar se vendendo, traindo o movimento, etc. Na década de 80, o Leonard Cohen abandonou o violão e abraçou o tecno-pop, cobrindo suas letras com camadas e mais camadas de sintetizadores e afins. Se vendendo, traindo, etc. Aqui no Brasil, teve o João, teve o Caetano, teve o Lobão, teve sei lá mais quem. Todos se vendendo. Todos traindo o movimento. E ninguém entendo nada.

Uma vez, o Frank Zappa deu uma entrevista dizendo que o conceito de “acorde” só faz sentido pra quem não entende de música. Que música não é feita de acordes, é feita de sons. Esses rebeldes que ousaram, ao longo das décadas, quebrar as barreiras dos gêneros e embolar o meio-de-campo da música popular, foram responsáveis, indiretamente, por nos lembrar disso. Música é feita de sons. Não importa a procedência, não importa o “estilo”, não importa o gênero – porque gênero só faz sentido pra quem não entende de música.

Sei que hoje a emboleira já faz parte das nossas expectativas. Todo mundo ama o proto-punk do Bob. Mas, vez por outra, ainda aparecem uns carinhas que nos pegam de surpresa com suas alquimias, as pontes que constroem entre as áreas mais distintas – e a poesia que tiram daí. Ouvindo o disco novo do Thom Yorke, me sinto como em Newport. Mas entendo tudo. É Aphex Twin, é Flying Lotus, é UNKLE, é um monte de coisas que nunca nem ouvi falar. E é Neil Young, é McCartney, é Bob, é Kurt, é Morrissey. É música feita de sons.

Nota sobre “O mestre”, de P. T. Anderson.

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Quando Godard criou o conceito de “autoria”, dignificando o papel do diretor de cinema e dando uma significação nova ao ofício, ele não sabia – e como poderia? – que estava criando, simultaneamente, uma via de salvação e uma maldição. Desde então, tornou-se sonho de todo cineasta independente se firmar como “autor”. Porque arte = expressão de ponto de vista individual. É esse o ensinamento de ouro da romântica nova onda da vanguarda. Se você tem algo a dizer, diga do seu modo. Rejeite quaisquer restrições impostas por estúdios, por tendências ou mesmo pelo bom-senso, caso qualquer um deles tente sufocar sua voz. O negócio é achar aquele estilo inimitável. Ir na contramão. Make it new.

Obviamente, se não fosse por Godard e sua poética do eu idiossincrático, não haveria Cassavetes; sem Cassavetes, não haveria o Scorsese que conhecemos ; sem o Scorsese que conhecemos, não haveria o Tarantino, etc. E essa mesma progressão pode ser usada ao analisarmos a trajetória de uma pá de outros artistas – basta pensarmos em toda a galerinha da “nova Hollywood”, o povo do Cinema Novo, os reinventores do cinema japonês, os próprios “pós-godardianos” franceses e todos os incontáveis artistas influenciados por eles.

Porém, fica a pergunta: ter uma “voz própria” carrega um valor em si? Um autor de cinema é sempre e necessariamente superior a um mero diretor – pelo simples fato de ser um autor? O próprio Godard, anos depois, reconheceu que muitos “operários padrão” foram responsáveis por obras de arte de valor inestimável. E, ao mesmo tempo, a quantidade de autores vagabundos surgidos após a explosão da Nouvelle Vague é abundante.

Acredito que a obsessão com a autoria acabou por subverter o sentido primeiro tanto de sua definição quanto de seu valor. Buscar uma voz própria a fim de expressar conteúdos incompatíveis com formatos convencionais me parece mais do que válido. Nesse sentido, tal poética da voz idiossincrática pregaria, acima de tudo, o direito do artista à liberdade. Se a forma convencional é pequena demais para a mensagem que você tem a partilhar, encontre uma que lhe seja cara! Porém, há certos autores que, creio eu, acabaram por fetichizar a prescrição godardiana. A busca pela forma perfeita não acompanha a concepção do conteúdo adequado: ela basta a si mesma. O que importa é a marca autoral, o dizer diferenciado, independente daquilo que é dito. E a obra, conseqüentemente, se torna mera estratégia de marketing pessoal, o reflexo mais infeliz da arrogância e superficialidade de seu realizador.

Tendo acabado de ver “O mestre”, último filme do (incompreensivelmente) festejado Paul Thomas Anderson, não consigo me livrar da impressão de que ela é um perfeito exemplo disso. Não que Anderson seja um picareta. Percebo em sua carreira uma legítima inquietação estética, um desejo autêntico de expressão artística. Porém, tal desejo, a meu ver, se encontra subjugado por uma demanda incontornável por autoralidade. Dos pastiches scorseseanos do início de carreira até a megalomaníaca tentativa de criar um “Giant” pós-moderno com “There will be blood”, sua trajetória me parece atravessada pela vontade de imposição de um voz pessoal – voz esta que ganha contornos definitivos em “O mestre”. Infelizmente, é uma voz que não nos diz absolutamente nada.

Todos os desvios narrativos, as elipses, a ausência de coesão, as distorções de timing, o hermetismo das imagens, o desenvolvimento oblíquo e ambíguo de personagens com os quais não conseguimos nos conectar em momento algum, a imprecisão da mensagem (se é que há alguma mensagem), as inconstâncias de tom – tudo isso, presente em escala menor em outros de seus filmes, aqui parece compor o todo.

Ver “O mestre” é deparar-se com um conjunto de cacos, uma série de peças que não se encaixam, os ecos de uma narrativa tradicional esquartejada em prol de uma voz diferenciada. O que me leva a pensar que a subversão do conceito de autoria encontra, aqui, um de seus ápices. Ao invés da expansão da narrativa através de expedientes incomuns que permitam ao artista ir aonde não poderia por vias convencionais, a mutilação da convencionalidade motivada pelo interesse do realizador de se firmar como autor.

Finalmente, Thomas Anderson conseguiu o que sempre quis: sacrificar o sentido em prol de um voz única. Ele é, finalmente, um eu idiossincrático.